Os efeitos da covid-19 e do isolamento social são inquestionáveis para a economia do Brasil e do mundo. Todos os segmentos foram impactados e o reflexo no varejo é um dos mais perceptíveis. Enquanto por volta de 17 de março, boa parte do país começava a entrar em isolamento social com expectativa de breve retorno para abril, foi em maio que começou a se consolidar o chamado novo normal. Em pouco tempo as vendas migraram para o ambiente online e a transformação digital se fez mandatória. Para se adaptar ao novo cenário, muitas empresas tiveram que criar ou aprimorar seus canais online para não perder share de mercado.

Durante a pandemia, 86% dos brasileiros conectados à Internet e acima de 18 anos compraram alguma coisa pela Internet. A maioria (38%) fez de 2 a 5 compras e 11,1% realizaram mais de 10 compras. Os dados são do Relatório Setores do E-commerce.

Agora em outubro, alguns estados e segmentos já iniciaram uma retomada das atividades presenciais e o desafio é entender previamente como será o cenário pós-pandemia. O Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar) divulgou um estudo para tentar entender quais serão os as maiores transformações e tendências do varejo em um Brasil pós-Covid.

As principais tendências são:

– Cultura do Faça Você Mesmo

Diante do refinamento e das restrições de compra, a cultura do Do It Yourself foi impulsionada. Esse conceito, que começou na década de 70 como rejeição à ideia de comprar produtos de comerciantes terceiros, pegou tração durante a pandemia, apoiada também pela ideia de consumo no círculo local, que visa estimular a priorização, na decisão de compra, pelo fabricante local. 

Por motivos como evitar que alguém vá até sua casa fazer uma montagem ou instalação e até mesmo para economizar com a contratação desse serviço, estão se saindo melhor as marcas que se antecipam e preparam tutoriais para ajudar o consumidor a “se virar”. Manuais mais detalhados, canais no Youtube e até parceria com influenciadores estão em alta principalmente para os mercados de decoração e reformas. 

Segundo uma pesquisa da do Grupo Consumoteca, 55% das pessoas da classe A e 39% da C fizeram alguma mudança na decoração de casa desde o início da pandemia. Segundo informações divulgadas pelo Portal Extra, o Mercado Livre, plataforma que reúne diversos vendedores em um mesmo site, registrou 84% mais pedidos na categoria Casa, Móveis e Jardim, de 24 de fevereiro a três de maio, comparado ao mesmo período do ano passado.

– Slowlife e consumo crítico

O impacto econômico trouxe em boa parte da população uma reflexão sobre prioridades e os hábitos de consumo foram impactados a medida em que os consumidores repensam suas necessidades. 

Já falamos, inclusive, sobre as pessoas estarem priorizando marcas que estejam com os valores e princípios alinhados com o atual momento, fazendo ações que não sejam apenas focadas em venda. O consumo consciente é uma tendência, tanto pela quantidade de compra quanto pela origem da produção e materiais usados, processo de reciclagem etc.

Esse alinhamento com novos valores e com uma realidade muito diferente está ajudando a renovar a consciência de muitas marcas. As que estão mais atentas a essas mudanças e exercitam a empatia com o público se movimentam em direção a uma nova cultura, com melhores exemplos para quem as acompanha e, consequentemente, melhores resultados em todos os sentidos.

– Redes Sociais e Digitalização

O chamado social selling veio para ficar. O termo é utilizado para classificar as vendas em redes como Facebook, Twitter, Instagram e LinkedIn. Esse é um recurso eficiente para quem deseja expandir o negócio com agilidade e deve coexistir com a reabertura das lojas físicas. 

Mais prático do que criar um site ou hospedar as vendas em algum marketplace, empreendedores e empresas estão usando as próprias redes sociais como ambiente de negociação. Isso, além da facilidade, de estar onde o cliente está, também traz um sentimento de humanização e pessoalidade que tem sido valorizado em momento de isolamento social. 

Um estudo global da consultoria PwC mostra que, no Brasil, 77% das pessoas se dizem influenciadas a comprar produtos por meio das redes sociais – ou seja, informações obtidas nestes canais, pelos comentários e ‘likes’ de amigos ou perfis de marcas, tiveram impacto nas suas decisões de compra. Por isso, plataformas como o Instagram e o Facebook estão cada vez mais de olho nessa fatia importante do mercado para ofertar às empresas uma possibilidade efetiva de capturar ainda mais consumidores.

Com a retomada das atividades presenciais, também identificamos uma forte tendência do modelo BOPIS (Buy Online Pick Up In Store), ou seja, o usuário faz a compra no site e retira o produto na loja. Vemos que esse modelo híbrido ganha cada vez mais força porque para alguns consumidores o contato pessoal é fundamental. Mesmo em período pré-pandemia já identificávamos um crescimento da mensageria no processo de vendas, justamente porque muitos usuários se sentem mais confortáveis em fazer as compras após algum contato com atendimento. 

A inédita experiência dos consumidores em adquirir produtos sem as lojas convencionais à sua disposição forçou um aprendizado importante e promoveu uma mudança significativa na relação entre clientes e lojas. O contato humano é essencial para alguns consumidores e o desafio de trazer essa sensação para o ambiente online ficou ainda mais evidente em 2020.